domingo, 28 de junho de 2015

O que mesmo você veio fazer aqui?

Como no velho clichê: “comece de onde está, com o que tem e como consegue”; comece agora, seja o que for, como for ou onde for. Alguns clichês podem acabar se tornando realmente interessantes. Alguns clichês acabam por realmente nos dar uma lição de vida. Todos eles tentam isso, mas só alguns conseguem. E esse ai certamente chegou lá. Se quer ser um escritor, escreva. Se quer ser um ator, atue. Se quer ser um bailarino, dance. Certamente não existe conselho mais clichê que esse. O da pessoa que “corre atrás do que sonha.” É bonito e parece muito simples. Tudo o que é bonito e simples, sempre gera desconfiança. E quando é bonito e simples, aplicado à alguma coisa que você possa fazer em relação a si mesmo, gera mais desconfiança ainda. E sempre, em algum lugar remoto por ai, existe alguém lucrando quando uma pessoa desconfia de si mesma.

A importância de não desconfiar de si mesmo reside no fato de se conseguir ser quem se quer ser. Simples, como disse. A vida humana transita em algum lugar entre o muito simples e o muito complexo. Nem tudo nessa vida é simples. Nem tudo nessa vida é complexo. Pessoas inteligentes conseguem dançar entre esse meio termo. Essa é a diferença entre quem vive e quem passa pela vida. Viver efetivamente, ativamente, verdadeiramente é conseguir dançar, jogar com os opostos. E quem ensina isso é a própria vida. E a física quântica. Mas, sobretudo, a vida como um todo.

Mas quem no meio disso tudo – carro, metrô, mulher, trabalho e bicho de estimação – sabe efetivamente o que quer? Como eu disse, sempre existe alguém ganhando com a desconfiança que as pessoas têm de si mesmas. Desconfiar de si é não se experimentar; e não se experimentar é não se conhecer. Mesmo as nossas experiências pessoais têm um limite, transitam entre opostos. Algumas experiências são impossíveis para alguns de nós, mas sempre existe uma esfera de experiências possíveis, acessíveis a cada um de nós. E é ai que reside o segredo da coisa toda. Saber como identificar uma experiência, não como um vil e animal prazer – como se entorpecer com cerveja ou trabalhar visando um ganho astronômico e vazio de grana –, mas algo refinado e efetivamente positivo: uma experiência que faz com que “um ser se abra em nós” – como dizia Bachelard – ou que faça com que o nosso “coração vibre” – como dizia Osho.

A ação que leva ao autoconhecimento necessita de uma completa confiança em si mesmo, mesmo que isso leve ao erro e à frustração. Cada erro nesse caminho da confiança de si é um passo dado à frente na direção do autoconhecimento. Nada, exceto o retrocesso, faz com que algo se perca enquanto estamos na direção certa. Para se viver dentro desta gama de experiências não existe uma fórmula. Os meandros desses caminhos são tão diversos quanto os tipos diferentes de pessoas e de suas respectivas personalidades. Muitas vezes é necessária uma ação imediata, radical e corajosa; outras um sutil e lento amadurecimento interior. Mas o fator da autoconfiança está sempre presente. E é ele o combustível tanto da ação radical quanto da revolução sutil. Por isso é preciso começar agora. Seja o que for, onde for e como for. Seja um amadurecimento lento, seja uma ação abrupta. E único modo de trilhar esse caminho que leva não apenas à um tipo mais refinado de satisfação e à um grau mais elevado de autoconhecimento é a confiança em si mesmo e naquela voz suave que vez por outra vem nos soar no ouvido, perguntando: “o que mesmo você veio fazer por aqui?”